De peito? De cabeça? De mix? De Belting? Como?

Uma preocupação muito recorrente em muitos cantores é a de se devem cantar uma nota, ou determinado trecho de uma música, com voz de peito, voz de cabeça, mix, Belting e por aí vai. Acabam perdendo-se tanto na questão da terminologia do que estão fazendo que acabam esquecendo o verdadeiro propósito da técnica vocal: servir à música e à expressão vocal. Toda técnica deve nos servir para um substrato artístico. Um artista plástico aprende suas pinceladas, com todos seus minuciosos movimentos e ajustes de pressão do pincel sobre uma determinada tela, para que aquilo que está na sua mente e no seu íntimo sejam expressados. A técnica, portanto, não é um fim, pelo qual o artista vive para tal. A técnica é, sim, um meio (muito importante, claro) através do qual o artista consegue se expressar em toda sua plenitude. E a importância do domínio de uma determinada técnica reside, justamente, em conseguir expressar a sua arte da maneira como você, como artista, deseja entregar ao público.

Cantando, portanto, a sua escolha por uma determinada nota ou trecho ser em determinado registro, ou sub-registro, deve ser guiada pelo que a música pede.

Ainda sobre a escolha de um determinado registro, ou sub-registro (e agora, sim, num panorama extremamente técnico), existem alguns problemas semânticos que nos aprontam verdadeiras armadilhas fisiológicas e acústicas. Explico.

Quando pensamos num som forte, com presença e grande projeção, logo pensamos em voz de peito. O próprio termo, por si só, já é bem pernicioso. O termo voz de peito nos faz querer um som forte e com sensações de ressonância mais próximas do peito. E isso pode minar qualquer performance e, até mesmo, sua afinação. (Pasmem! O peito não é um ressonador de verdade. Falo mais sobre isso n’outro post). Veja bem: projeção se dá pelos fenômenos acústicos de harmônicos e formantes. Os formantes são picos nos harmônicos e eles são modificados de acordo com nosso “manuseio” do trato vocal. Um manuseio preciso e correto do trato vocal nos fará sentir o som (sensação de ressonância) em diferentes regiões do nosso corpo. Quanto mais agudo, mais para cima da nossa cabeça vamos sentir o som. Além disso, fisiologicamente falando, na voz de peito temos a preponderância do músculo TA interno (porção interna do tireoaritenóideo) sobre o CT (cricotireóideo) para a tensão das pregas vocais. O TA interno, além de encurtar as pregas vocais, proporciona o aumento da massa, “engordando” a prega vocal. Geralmente essa condição das pregas vocais faz os cantores sentirem uma falsa sensação de controle e uma falsa sensação de potência. Isso pois, além de outros fatores, os ressonadores correspondentes para esse comportamento muscular das pregas vocais são maiores e, por isso, nos fazem sentir um som aparentemente “maior”. Tentando manter essa situação, os cantores acabam pensando que suas vozes serão controladas e projetadas a partir desse comportamento, o que não é nada além de um “suicídio vocal”. ATENÇÃO: Som forte não é sinônimo de força física. A relação não é proporcional. E isso pois à medida que vamos indo no sentido dos agudos, as pregas vocais vão perdendo massa e tornando-se menos espessas. Além disso, os ressonadores recrutados para esse comportamento muscular são menores e mais superiores. A sensação dos formantes muda. Ou seja, se buscarmos manter a mesma sensação de voz de peito durante toda uma canção, além de deixarmos ela monótona, vamos correr um risco sério de terminarmos com um certo cansaço vocal.

Falando sobre as sensações de ressonância (que são as sensações dos nossos formantes), é bom deixar bem claro que sensação de ressonância alta não quer dizer que você está em voz de cabeça. Você pode estar num mix muito bem equilibrado e com a sensação de ressonância mais alta que na voz de peito. O som, nesse caso, inclusive, possivelmente estará bem forte, mas com pouca sensação de “esforço físico”. Muitos cantores, por confundirem os termos, acabam sobrecarregando seus instrumentos por buscarem um som mais “pesado” e, por isso, acabam tentando manter suas vozes “no peito”. Essa “manipulação” vocal tende a nos manter presos em uma extensão reduzida e, ao contrário do que se pensa, com projeção prejudicada. As sensações livres de ressonância são resultados de um correto alinhamento entre nossas pregas vocais e nossas cavidades amplificadoras. Para cada “shape” de prega vocal, uma determinada cavidade será recrutada. E isso precisa ser entendido. A projeção, o brilho e o timbre rico da voz serão moldados por diversos fatores, mas, principalmente por uma correta aplicação das vogais.

Trabalhar com todas essas possibilidades é trabalhar a nossa dinâmica vocal. A voz precisa ser dinâmica em muitos aspectos. Talvez não haja, inclusive, instrumento tão completo em termos de possibilidades e dinâmicas como nosso próprio corpo produzindo a nossa voz. E é por isso que me encanto tanto com ela. E, por dinâmica vocal podemos entender trabalhar com inúmeras possibilidades. De peito, de cabeça, de belting, de mix, de speaking, não importa. O que importa é o resultado final servindo à música que você está cantando, em termos artísticos. Em termos técnicos, sua voz precisa ser eficiente (atendendo às demandas da canção e do estilo) e saudável. Portanto, não se sabote, tampouco à sua música.

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9 comentários em “De peito? De cabeça? De mix? De Belting? Como?

  1. Pingback: Reflexões sobre Belting (Parte 1) | Fernando Zimmermann

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