O Trato Vocal e a Voz

Um vídeo que achei no YouTube inspirou-me muito a escrever esse artigo. Trata-se de experimentos feitos com moldes 3D de tratos vocais em conjunto com uma espécie de “corneta” (como das caixas eletroacústicas). Essa “corneta” produz o que seria o nosso som fundamental (som puro das pregas vocais). O modelo de trato vocal moldaria o som de acordo com a conformação anatômica assumida. Vejam abaixo e depois continuamos o discurso.

Antes de continuarmos, vamos entender o que é o trato vocal. Trato vocal é o espaço compreendido entre as pregas vocais e os lábios. Se fôssemos descrever geograficamente, ele se limita ao sul pelas pregas vocais, ao norte pela nasofaringe e a noroeste (de acordo com a imagem a seguir) pelos lábios. Veja, em destaque azul, a forma do trato vocal.

Trato Vocal destacado em azul.

Trato Vocal destacado em azul.

O modelo usado na experiência do vídeo é um molde em 3D do que foi destacado acima. No trato vocal é que damos a forma das nossas vogais e, por consquência, modificamos a cor do nosso som. Muito do que é feito em termos de manipulação de vogais altera, inclusive, a forma como as pregas vocais vão se comportar em determinadas regiões da nossa voz (mas vou falar sobre isso num outro post).

Para esse post eu quero chamar atenção para alguns dos detalhes primários, e talvez os mais importantes, do que esse vídeo traz como sabedoria. Percebam que o nosso som fundamental é apenas uma espécie de zumbido. Som fundamental, como citado anteriormente, é o som gerado pelas pregas vocais. Isso mesmo! Nossas pregas vocais geram, apenas, um “buzzzzzz”. É claro que esse ruído (ou zumbido, se preferirem) pode variar de acordo com o comportamento muscular dos tensores de prega vocal (TA interno e CT), mas ainda assim o som não passa de um zumbido. O que dará a forma e a cor do nosso som final é a maneira como manipulamos o nosso trato vocal. Nele estão faringe, cavidade oral, palato mole, palato duro, dentes, língua e lábios. E, como cada pessoa tem um trato vocal diferente, cada um terá uma voz naturalmente diferente. Portanto, cada pessoa terá um timbre único. Isso já nos dá uma ótima justificativa de porque imitar um cantor pode ser danoso. Se não temos conformidades anatômicas semelhantes (para não dizer iguais) de trato vocal, pouco conseguiremos nos aproximar do timbre do ídolo. E aí começam as compensações e “apertos” que podem trazer alguns ônus. Além, é claro, de esse tipo de atitude nos limitar enquanto cantores por não permitirmos o desenvolvimento pleno do NOSSO instrumento.

No trato vocal é que parte da amplificação do nosso som ocorre, como você deve ter percebido no vídeo. Quando há apenas o alto-falante o som é o zumbido. Quando o modelo do trato vocal é inserido, o som se amplifica e ganha projeção. Vale lembrar que projeção não é igual a volume (intensidade). Projeção se dá por harmônicos que são conseguidos, também, por uma manipulação correta do trato vocal. Portanto, outra grande sabedoria é a de que não devemos onerar nossas pregas vocais atribuindo-lhes o fardo de realizar um grande som. Elas fazem só a primeira etapa do processo todo. Claro que tem fundamental importância, mas não única importância. Assim sendo, faz todo o sentido aquela velha máxima de “não cantar na garganta”, não é mesmo?

Todavia, pedagogicamente falando, acredito ser um fardo muito pesado pensarmos em manipular todas essas estruturas do trato vocal. Sempre ouvi muitos professores falarem em “subir o palato”, “abrir o véu palatino”, “abrir os pilares da faringe”, “cantar com a garganta aberta” e muitas outras máximas. Já recebi alguns alunos que, de tanto tentarem elevar o palato mole acabaram ganhando um timbre de “batata quente na boca”. Ao invés disso, penso ser um caminho muito mais direto, objetivo e sem o risco de exageros, o fato de pensarmos, conscientemente, nas vogais. Elas é que vão modificar a forma do nosso trato vocal. E você se engana se acha que temos apenas 5, 7 ou 8 vogais. Temos muito mais. Não à toa existe algo chamado de IPA (International Phonetic Alphabet), ou Alfabeto Fonético Internacional. Elaborada pela Associação Fonética Internacional, é usada por especialistas em linguagem, fonoaudiologia (sobretudo da parte da fonética acústica) e muitos outros profissionais que lidam com a expressão falada. O IPA é a representação dos sons falados (e/ou cantados). Você pode começar a “fuçar” um pouco mais sobre o IPA aqui. Você já vai ter uma idéia de que, no mundo (e até mesmo no português), temos muito mais vogais que imaginamos. E essas vogais terão relações distintas na manipulação do trato vocal.

Espero ter ajudado com mais esse breve artigo. Até a próxima!

Fernando Zimmermann

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3 comentários em “O Trato Vocal e a Voz

  1. Oi, Fernando! Seu artigo é bastante esclarecedor para o aluno iniciante e para todos os curiosos, parabéns pela iniciativa! A sacada do cara em criar esse vídeo é fantástica!! Aliás, esse tipo de iniciativa, essa possibilidade de transformar a teoria num experimento prático é de grande importância. Obrigada por garimpar isso e por compartilhar! Beijo!

    • Eu achei esse vídeo fantástico. Apresento aos meus alunos iniciantes todos, e até para alguns já avançados que precisam de uma reciclagem nos conceitos. Até fiquei com medo de tirarem do YouTube, por isso fiz o download e botei no meu canal, alertando, claro, para o fato de que ele não me pertence e não possuo os direitos autorais de tal. Mas a idéia de compartilhar é o que mais me move. Conhecimento é nosso! Obrigadão pela visita e pelas palavras. Beijos!

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