Que cantor sou eu? Que professor eu tenho? Que professor eu sou?

Por inúmeras vezes fui flagrado em situações que me punham dúvidas a respeito das minhas orientações vocais. Tive ótimos professores e outros dos quais me recordo, ainda, com um ponto de interrogação na cabeça. Confesso que eu, na maioria das vezes, fui omisso e passivo no meu aprendizado (justiça seja feita). Mas, com o tempo, aprendi a intervir no meu processo educacional, contribuindo para a construção de um melhor relacionamento Professor X Aluno e para uma maior eficácia da minha técnica vocal.

Existe um provérbio chinês que diz o seguinte: “Quem ouve, esquece. Quem vê, lembra. Quem faz, aprende.”

Neste sentido, quero propor uma análise dos seguintes pontos tangentes à nossa instrução vocal:

  1. Como estou sendo orientado?
  2. Como estou orientando meus estudos/minha busca por informações? (ou: Estou sendo ativo no meu processo de maturação técnico vocal?)
  3. Estou aplicando tudo que estou aprendendo? (ou: Estou estudando, efetivamente?)

 

1) Como estou sendo orientado?

Muitas vezes, em nossas aulas, nos perguntamos: “onde será que essa pessoa está me levando”? Você já se identificou numa situação dessa? “O que esse(a) professor(a) quer de mim”? Quando este tipo de dúvida aparece, pergunte-se: “Como estou sendo orientado?”.

Professores de técnica vocal, assim como estudantes de técnica vocal (e os bons professores de técnica vocal ainda são estudantes de técnica vocal), costumam ter linhas de trabalho/percepções bem distintas. Existem, basicamente, os seguintes perfis:

  • Fisiologistas teótricos;
  • Cinestésicos;
  • Psicólogos;
  • Espiritualistas.

É válido ressaltar, antes de prosseguir, que os perfis acima não são estanques. Eles podem, inclusive (e isso acontece na maioria das vezes), aparecer todos no mesmo professor. Tente identificar qual perfil (ou quais perfis) seu orientador possui. Vamos tratar a respeito de cada perfil.

O Fisiologista Teórico é aquele professor que entende muito sobre fisiolgia vocal e transmite seus conhecimentos aos seus alunos. Seus longos discursos sobre o funcionamento do aparelho fonador são inflamados com a paixão pelo ofício. A empolgação deste profissional brilha nos olhos e cada aula é uma verdadeira palestra. Muitas vezes, inclusive, as aulas terminam rapidamente pois o assunto foi muito esclarecedor e prazeroso.

  • Vantagens deste perfil: a segurança do fisiologista teórico e seus conhecimentos lhe atribuem plena convicção do caminho que está sendo trilhado junto ao estudante. Ele tem certeza que nunca colocará a saúde do aparelho fonador em risco.
  • Desvantagens deste perfil: as aulas, apesar de empolgantes, podem desviar o foco do cantar. Muitas vezes, os alunos destes professores acabam sabendo explicar tudo sobre como emitir notas agudas, bem sustentadas, com brilho e facilidade, mas pouco o fazem pois aprenderam a receita, mas quase nunca (ou nunca) a fizeram.

O Cinestésico é aquele profissional que conduz tudo através de sensações. A cinestesia, também chamada por muitos de propriocepção, é responsável (dentre outras atribuições) pela noção e sensação dos nossos movimentos musculares. O professor cinestésico sempre estará procurando aquele ponto de ressonância, aquela leveza no som, aquela sensação no peito, na boca ou onde for. Na maioria das vezes compartilham suas próprias sensações tentando conduzir o aluno a encontrá-las também.

  • Vantagens deste perfil: por sempre querer estimular sensações, o cinestésico estimula muito o fazer. Repetições de exercícios e rotinas de longas vocalizações permeiam suas aulas.
  • Desvantagens deste perfil: em muitos casos, os cinestésicos aplicam, sem perceber, as suas próprias sensações como guia para a condução das aulas. Muitas vezes as suas noções fisiológicas, inclusive, não são tão apuradas. O problema deste perfil está quando a cinestesia do professor não está alinhada com preceitos fisiológicos e não consegue sensibilizar, efetivamente, o aluno.

O Psicólogo é aquele professor que sempre perguntará da sua semana, da sua família, do seu cônjuge, do quão feliz você está e demais questões do seu dia-a-dia. Normalmente este profissional lhe ajudará a encontrar seus piores medos e enfrentá-los de frente. Sempre com muita motivação, o professor deste perfil tentará lhe ajudar em muitos aspectos além do cantar, pois ele entende que cantar sempre deve estar atrelado ao seu emocional. Se você não está bem emocionalmente, não cantará bem.

  • Vantagens deste perfil: o psicólogo sempre lhe botará pra cima. Mesmo que as aulas terminem aos prantos, ele certamente lhe ajudou a colocar alguma mágoa pra fora. Extravasar, muitas vezes, é uma ótima maneira para estimular a busca pelos resultados.
  • Desvantagens deste perfil: se focado demasiadamente no aspecto emocional, o psicólogo acaba negligenciando os processos fonatórios ditados pelos princípios da fisiologia. Esquece-se, também, da condução através da cinestesia, o que ajudará o aluno a se perceber como cantor tecnicamente alinhado.

O Espiritualista conduz suas aulas como se fossem verdadeiras sessões de meditação. Alongamentos feitos com muita calma, longas rotinas respiratórias e imagens (estimuladas ao nosso pensamento) de lugares, cheiros, gostos, cores e temperaturas são o cerne de uma aula deste professor. O espiritualista sempre falará de aspectos místicos ligados ao canto. Dependendo da sua formação, ele conduzirá o cantar a um aspecto de dom divino. Noutro viés, ele poderá conduzir o aluno a experimentar questões que tangem auras, comportamentos ligados ao signo, posições lunares etc.

  • Vantagens deste perfil: entende muito bem a relação corpo X espírito e sabe que um perfeito equilíbrio entre os dois é a chave para a descoberta da própria voz.
  • Desvantagens deste perfil: quando (e se) estiver focado demasiadamente a questões espirituais, esotéricas e místicas, deixará de lado muitos princípios fisiológicos que podem proporcionar maior rendimento ao cantor. Muitas vezes o encontrar a própria voz através de um alinhamento corpo X espírito não traz resultados efetivos no desenvolvimento e aprimoramento vocal.

Como disse anteriormente, os perfis não são estanques. Separei, aqui, um por um para ilustrar como pode se desenrolar muitas aulas de canto e técnica vocal. É bem capaz, inclusive, de o seu professor possuir todos os perfis bem distribuídos. Essa, inclusive, é a situaçao que considero ideal. Assim, sendo, podemos partir para o nosso próximo tópico.

 

2) Como estou orientando meus estudos/minha busca por informações? (ou: Estou sendo ativo no meu processo de maturação técnico vocal?).

Mais importante do que a forma que seu professor conduz as suas aulas e os seus estudos, é a sua escolha pelo profissional (perfil) que melhor você se identifica. Além disso, participar ativamente (sugerindo caminhos, sinalizando como você está se sentindo, quanto tem progredido) é ingrediente fundamental para que seu rendimento seja sempre o máximo possível.

Vistos os perfis descritos anteriormente, tente identificar como você se relaciona com o cantar. Que tipo de orientação você procura. Identifique-se como cantor. Isso lhe ajudará a escolher o profissional certo para sua orientação. Desta forma você estará orientando seus estudos para atender seus objetivos. A sua busca por informações será muito mais efetiva. Participe ativamente do seu processo de maturação técnico vocal.

A relação professor de canto/técnica vocal X aluno deve ser sempre muito estreita. O professor é sempre um orientador, um facilitador. Mas o êxito reside no empenho e dedicação do aluno. O professor provê as ferramentas. O aluno as utiliza para atingir o sucesso que AMBOS desejam. Enfatizei que AMBOS desejam o sucesso pois a realização do aluno é cantar em sua plenitude. O sucesso do professor é o de prover-lhe as ferramentas ideais para que esse objetivo seja atingido. Portanto reitero: participe do seu processo educacional. Comunique-se com seu professor. Conheça-se e conheça ao seu mestre. A colaboração é a chave para o sucesso de ambos.

E, o mais importante, lembre-se que tudo tem que fazer sentido pra você. Se não estiver fazendo sentido, comunique ao seu orientador. Se vocês não chegarem a um acordo, procure outras alternativas. E lembre-se: não é que aquele profissional é melhor ou pior. Simplesmente ele é diferente. Mas, para chegar a essa conclusão, é importante que você se conheça, primeiro. Isso, inclusive, poupará tempo de ambos.

 

3) Estou aplicando tudo que estou aprendendo? (ou: Estou estudando, efetivamente?)

No começo deste texto citei um provérbio chinês que, inclusive, é atribuído a Confúcio: “Quem ouve, esquece. Quem vê, lembra. Quem faz, aprende.”

Neste sentido, independentemente da forma como você recebeu sua orientação, independetemente do perfil (ou dos perfis) que seu professor tem para conduzir suas aulas e independentemente de qualquer coisa, lembre-se que o fazer fará você aprender. Assim, grave suas aulas. Documente-as. Determine objetivos e rotinas de treino. Repita sua aula pelo menos mais 4 vezes durante uma semana. Quando voltar, na próxima semana, para a aula, você e seu professor terão caminhado vários passos para a frente e nenhum pra trás.

Aplique o que você aprendeu. Escreva quais foram as suas percepções ou grave-as. Anote dúvidas que possam ser tiradas na próxima aula. Participe do processo. Você ouviu na aula, mas pode esquecer. Você viu na aula, mas corre o risco de apenas lembrar e não conseguir repetir. Você fez na aula e você aprendeu. Você repetiu em casa, aprendeu novamente e fixou o que aprendeu. A sua repetição o levará à excelência. Siga as orientações do seu professor. Ele está lhe provendo ferramentas para que ambos tenham sucesso, ele como professor e você como cantor.

 

Considerações finais

Aos estudantes de canto/técnica vocal: busque saber qual é a sua forma de aprender. Deixe isso claro ao seu orientador. Dedique atenção aos detalhes que são passados em aula e repita muitas vezes em casa. Nunca se prive de deixar tudo esclarecido entre você e seu professor. Isso assegurará muito mais eficácia nas suas aulas. Busque entender qual o perfil (ou quais os perfis) da sua aula e participe ativamente para que as suas dúvidas sejam sanadas através do caminho que for mais coerente com a sua forma de aprender.

Aos professores de canto/técnica vocal (colegas de profissão): especialize-se sempre. Recicle-se sempre. Esteja pronto e disposto a aprender com seus alunos e a respeitar as suas formas particulares de aprendizado. Esteja disposto, também, a estudar/aprender novas metodologias. Tenha o máximo de ferramentas possível para prover aos seus alunos. Além disso, tente identificar qual o seu perfil predominante. Invista esforços em sempre ser o melhor possível dentro do seu perfil. Mas nunca negligencie que existem outras formas de estabelecer a relação ensino-aprendizagem em canto/técnica vocal. Portanto, fortaleça os perfis mais fracos, a fim de equilbrar a sua forma de dar aulas.

 

A todos meus amigos cantores, alunos e professores: espero ter sido útil nessa reflexão. O que quis propor foi exatamente isto: uma reflexão a respeito dos nossos papéis como estudantes, cantores e professores. Para mim (e espero que para vocês também), fica a lição de que o trabalho, quanto mais colaborativo for, melhor. Além disso, o fazer é a chave para a excelência. Independentemente de qual for o estímulo do fazer (diferentes perfis), o importante é fazer. Aprender é fazer. Fazer sempre é caminhar rumo ao máximo da eficiência.

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2 comentários em “Que cantor sou eu? Que professor eu tenho? Que professor eu sou?

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